19 de dezembro de 2012

Nas entrelinhas das normas convencionais


Certos detalhes que servem para esclarecer as coisas para pessoas normais, apenas me confundem. Ou confundiam, estou começando a ficar mais esperta. É o caso da placa “Proibido estacionar – Garagem”. Quando eu perguntava ao meu pai:
-Pai, se não pode estacionar, para quê serve essa garagem?
Ele dava uma risadinha e fazia um comentário do tipo:
- Engraçadinha você.
Mas era sério. Só agora eu compreendi a lógica.
 Antes também não fazia sentido a lista de ingredientes das receitas. Eu, toda empolgada, resolvia fazer um bolo, mesmo sem ter permissão para ligar o forno. Minhas dúvidas surgiam logo no início da receita:
3 xícaras de chá de farinha de trigo;
1 colher de sopa de fermento.
Da cozinha, eu gritava:
- Mãe, como faz chá de trigo?
- Sei lá! Não existe!
- E sopa de fermento?
Pronto, ia por água abaixo a descoberta de meus dotes culinários.

28 de novembro de 2012

Vamos falar de esmaltes?


Gente! As mulheres tão aderindo umas modas muito estranhas! O que está acontecendo? Juro que não sou muito machista, mas de uma hora para outra elas resolveram amar luta livre (que pelo que me disseram, não é livre mais, mesmo parecendo muito livre), elas assistem e comentam sobre um tal de UFC, que para mim era Universidade Federal do C#... Sei lá de onde. Sério! Que medo.
Como se não bastasse gostar de luta, elas decidiram que não é estranho ler livro erótico em público. E o pior: Ter muito orgulho de mostrar que está lendo o livro. Confesso que não entendia esse fenômeno e resolvi baixar na internet e ler o primeiro capítulo. Somente o primeiro capítulo foi o suficiente para eu apagar e arquivo e me perguntar novamente: “O que Diabos está acontecendo com essas mulheres?”
O livro é mal escrito, a personagem principal é boba e submissa. Sem falar na putaria, com o perdão da palavra, não tem absolutamente nada de romântico naquilo. E sim! Todas adoram e leem em qualquer lugar, leem no trabalho, leem no metrô, leem assistindo UFC. Nessa hora eu imagino a junção disso tudo e desejo cinquenta tons de roxo no olho de quem escreveu o Best Seller.

21 de novembro de 2012

Aquela dos quase 30


Aos 13 anos, eu ainda brincava de boneca e minha maior preocupação era: “Ai, meu Deus do céu, as pessoas crescem e param de brincar de boneca, como elas conseguem? É tão divertido, eu nunca vou conseguir parar e todos vão rir de mim. Minha vida já era”. Percebi que era um drama desnecessário após um ano, quando simplesmente deixei de gostar das Barbies falsificadas e pensei: “Nunca mais farei drama”. Minutos depois eu inventei um amor platônico e minha maior preocupação era: “Ai, meu Deus do céu, eu vou amar esse menino até morrer e ele nunca vai corresponder, vou ficar velhinha sofrendo por ele, minha vida já era”. Percebi que era um drama desnecessário após um tempo quando eu simplesmente esqueci o amor platônico e pensei: “Nunca mais”. Minutos depois eu lembrei de que já era hora de deixar de gostar da Sandy e minha maior preocupação no momento foi: “Ai, meu Deus do céu, eu amo a Sandy, um dia serei uma mulher de 30 anos que ainda gosta da Sandy, minha vida já era.” E aqui estou eu, com quase 30 anos. Alguns dramas são reais.

9 de outubro de 2012

N - Natureza, O - Obrigada


Eu vou em festa sertaneja, eu vou em Rave, eu vou até na festa do laço por prova de amizade, mas acampar eu não vou. Nunca.
Essa é a temporada de acampamento, eu não entendo por que, mas as pessoas resolvem fazer isso na mesma temporada dos besouros, das mariposas e de todo inseto asqueroso que possa existir. E não é só por causa dos insetos que não acampo, é também por causa do Jason e dos filmes da franquia Pânico. Como eles começam? Em uma igreja? Em uma festinha? Não! Em um acampamento!  A lição de moral desses filmes é: Não saia para acampar e nunca pergunte “Tem alguém aí?”.
No mais é tudo horrível. Dormir em colchonete, ficar sem tomar banho (porque ninguém me obrigaria a tomar banho no rio ou em qualquer água fria), além de ficar sem internet e sem maquiagem.
Aí chegam com aquela história de natureza e blá blá blá. Meu amigo, minha amiga, eu separo o lixo reciclável. Já faço minha parte, não preciso enfrentar os perigos do mato pra provar meu amor pela natureza.
- Mas, Michele, tomar banho de rio é uma delícia!
- É? Deixa eu pensar... Peixinhos mordedores de canelas, pedras escorregadias, cobras que engolem pessoas. Ok. Vai lá tomar seu banho, vai.

11 de setembro de 2012

Everybody!


Cágano Refrão – Do latim Caganus Refranus, é um fenômeno musical que consiste em compor uma boa música, mas estragar tudo no refrão. Um exemplo clássico vem da diva Marisa Monte. É inacreditável que justamente ela, que sempre acerta, tenha feito isso. A canção começa muito bem, é gostoso cantar junto: “Deixa eu dizer que te amo, deixa eu pensar em você...”  A música segue com toda sua poesia até que chega ao maldito refrão. Onde ela estava com a cabeça quando escreveu: “Amor I love you, amor I love you, amor I love yooou”? Por que, Marisa?
O mesmo aconteceu com a Pitty, que já errou outras vezes, mas esse erro ainda não tinha cometido. Da mesma forma, começa bem: “Tantas decepções eu já vivi, aquela foi de longe a mais cruel...” Música bonitinha, boa de ouvir e de cantar, até que... “Que você me adora, e me acha foda...” E me acha foda, Pitty? É isso mesmo?
Não sei explicar de onde surgiu o fenômeno, nem sei por que ocorre tal deslize justamente no refrão, mas sei que é uma lástima para o cenário musical brasileiro. Mas pensando bem, que bom seria se os sertanejos universitários estragassem apenas o refrão de suas músicas.

15 de agosto de 2012

Parem os adultos!


Eu estava aqui comendo um sorvete seco e pensando que tem um tempo na vida que é bem difícil. Não é infância nem adolescência, é a transição dessas duas fases. Quem dificultava minha vida nessa época eram os adultos.
Que momento constrangedor a hora de cantar parabéns em uma festa infantil onde os adultos falavam: “Crianças, se juntem atrás do bolo para tirar foto”. Eu tentava não ser notada, afinal eu não era criança, eu era bem mais evoluída que aqueles pirralhos cheios de verme, mas a tia me empurrava para a cena em questão. Eu me juntava às adoráveis crianças, tentando controlar meus braços que eram desproporcionais ao resto do corpo e saía na foto com cara de blasé, que só queria mesmo comer os brigadeiros e ir embora escrever no diário que ninguém me entendia.
No fundo eu também não sabia se eu queria ser criança ou adolescente, afinal eu ainda gostava de banho de chuva, mas os adultos deveriam me deixar decidir que hora eu seria criança e que hora eu não seria. E nunca dizer que Fulana era minha “amiguinha” da escola, e nunca fazer a tenebrosa pergunta: “E os namorado?”.
Aliás, as tias me fazem essa pergunta até hoje. Tem alguma coisa errada e estou começando a achar que o problema não é com as tias.

1 de julho de 2012

Tentação

Os meses de junho e julho não são fáceis para mim por causa das benditas festas caipiras, cheiro de amendoim, gente feia, nada que vocês não saibam, mas tem outra frustração que esses meses carregam que é a saga da maçã do amor. Mesmo detestando essas festas eu dou uma passadinha rápida em uma ou outra para comprar maçã do amor. Ou da tortura. Ou da enganação.
Ela é linda, vermelha, brilhante, dá água na boca, meu coração dispara sempre, não importa quantas vezes eu quebre a cara (ou um pedacinho de dente) eu sempre quero outra. Talvez eu esteja em busca da maçã perfeita, uma que não me deixe com cortes na boca e a sensação de "Parecia tão mais gostosa".
É assim com a maçã do amor, eu sei que vou me decepcionar e mesmo assim compro outra. Não poderia ser diferente com um joguinho do Facebook que surgiu na minha vida justamente nesse mês frustrante. Song Pop. A regra é adivinhar o nome da música ou do intérprete depois de ouvir um trechinho. Parecia fácil até eu descobrir que as pessoas conhecem todas as músicas do Universo e acertam com menos de dois segundos. Menos de dois segundos. Sério. Nunca ganhei de ninguém, confundo Ivete Sangalo com Amado Batista, ás vezes acerto alguma coisa porque clico freneticamente sem ouvir a melodia. Decidi ignorar os convites desse jogo, mas sei que mais cedo ou mais tarde estarei lá perdendo mais uma vez com a autoconfiança abalada e a gengiva sangrando.

22 de maio de 2012

Texto censurado


Um dia desses, assistindo a novela Avenida Brasil, deparei-me com uma cena violenta, onde o velho do lixão gritava com a vilã coisas do tipo: “Vai se ferrar! Eu quero que você se dane!” Percebe-se que na vida real usaríamos outras expressões num momento de ódio, mas o pior foi: “Quero que você enfie esse dinheiro no seu nariz!”.  No nariz? Sei.
Não pode falar palavrão na novela, a palavra cu é inapropriada para uma novela que toda família assiste. Mas cenas quentes da Suellen, que sai com todo elenco masculino, pode? Não entendi. Novela é uma putaria maquiada. Seria melhor liberar os palavrões de uma vez, ficaria mais autêntica.
Para mim a palavra cu nem é feia, é engraçada. Talvez pelo fato de na minha infância, minha mãe ensinar um versinho, que hoje, nesse mundo politicamente correto, ela morre de vergonha e não me deixa contar pra ninguém que aprendi isso com quatro anos de idade:

Vamos embora
Pra Pirapora
Comendo amora
Com o cu de fora

3 de maio de 2012

Sinais

Há mais ou menos cinco meses completei um quarto de século e na época compartilhei da minha angústia com vocês, mas era só pelo fato de saber que em pouco tempo faria cinquenta e depois cem anos. O que eu não sabia é que tantas coisas mudariam.
Antes dos vinte e cinco eu podia comer de tudo, quase nada fazia mal, agora nessa idade leite faz mal, fritura faz mal, café faz mal e o pior de tudo: Cerveja faz mal, não mal no bom sentido, estou falando de alergia séria.
Antes eu ia à baladinha, dançava até o chão, chegava e dormia com a roupa que estava, maquiagem e sapatos. Na semana passada dancei até o chão, cheguei e quando percebi já havia tomado banho e estava em frente ao espelho passando demaquilante e creme antirrugas.
O próximo passo é gostar de doce de figo, doce de pêssego, doce de mamão e, meu Deus do céu, aprender crochê.

2 de abril de 2012

Em uma janela qualquer

Eu deixei de usar o MSN há algum tempo, só às vezes entro para resolver assuntos do trabalho. Era um dia normal, entrei no MSN e me lembrei porque eu havia o abandonado e migrado para o chat do Facebook.
Transcrevo a conversa, tal como foi:

aline diz: oi flor, tava sumida
[Começou me chamando de flor, maravilha]
Michele diz: quem é?
aline diz: Aline. Eu to off aí né? Meu msn tá doido
[Doida é você]
Michele diz: Mas eu não me lembro de nenhuma Aline. De onde te conheço?
aline diz: aff q brisa..sua prima, prima do João
[Brisa?]
Michele diz: hehehe Não tenho nenhuma prima Aline
aline diz: hehehehehe...se ta com graça né? Doidinha kkkk
[Esse “se” significa você? Na minha família não]
Michele diz: Ai meu Deus.
aline diz: heheheehehe
Michele diz: vc tá confundindo. Acontece
aline diz: sei, deve ser mal de Parkinson hehehehehehehe
[Pronto, morri]
Michele diz: Você quis dizer de Alzheimer? Mas é serio, meu nome é Michele Matos, moro em Amambai MS
aline diz: não, vc mora em Itajaí SC. Esqueceu?
[Esqueci por quê mesmo decidi explicar alguma coisa]
Michele diz: Ah vá... Não sei quem é você, vc não admite que está errada e ainda tá atrapalhando meu serviço. Tchau
[Fui grossa, fiquei com dó, mas achei que assim ela perceberia o engano]
aline diz: Ta bom. Tchau. Bjo. Foi um prazer. Hehehe dá trabalho essa pessoa.

Fechei o MSN e ainda não tive coragem de entrar novamente.

15 de março de 2012

Tchu tcha

Tenho visto muita gente reclamar dos DJs de ônibus, pessoal que não usa fone de ouvido para ouvir música no transporte público. Eu não uso esse tipo de transporte então nunca me importei com a causa, só não sabia que a moda se estendia em ônibus de viagem também e posso afirmar que tive uma experiência terrível no último fim de semana.
Ouvi as canções mais tenebrosas que eu nem sabia que existiam. Na viagem de volta foram umas quatro horas sendo obrigada a permanecer sentada ao lado de funkeiros sem noção que mostravam a potência daquele celular que eu torcia para que explodisse.
Aí o que fazer? Eu até tentava curtir a vibe, entrar no clima do batidão, levar a letra numa boa, mas tudo que eu imaginava eram chamas, as chamas do inferno. Pensei em reclamar educadamente, mas ele poderia reagir de várias maneiras. E se ele me ignorasse? E se ele concordasse em desligar, quem me garante que eu não acordaria com um desenho fálico na testa? Ainda faltavam três horas, eu queria dormir. Desocuparam umas poltronas lá na frente e eu fugi daquele barulho sem olhar para trás.
Pensar que no primeiro ônibus uma senhorinha me disse que a lua estava derretendo e quando derretesse completamente o mundo iria acabar. Ela tinha razão, a cada vez que um funkeiro nos obriga a compartilhar de seu gosto musical, a lua derrete um pouquinho.

1 de fevereiro de 2012

Maracujá?

Olha, se minha vida financeira dependesse de um jogo onde com os olhos vendados eu tivesse que provar algo e descobrir o que é, estaria ferrada. Paladar é um sentido muito complicado para mim. Na hora do almoço minha mãe faz um suco amarelo e me pede para descobrir o sabor, provo só por desencargo de consciência, porque sei que vou chutar nomes de todas frutas amarelas que me vier a mente.
Admiro muito o enólogo, aquele sujeito que faz faculdade de vinho e tem o olfato e paladar aguçadíssimos. Ao chegar a uma festa, aceita uma tacinha de vinho, gira a taça no sentido horário, com inclinação de 26 graus em relação a Greenwich, cheira com os olhos fechados, prova, levanta uma sobrancelha e fala coisas como: “Blá blá blá sabor amadeirado, blá blá blá antocianinas elevadas...” Como pode né? Acredito que pessoas com esse dom sejam capazes de dar uma lambidinha na testa de alguém e descrever sua personalidade.
Talvez eu estude enologia e um dia, em uma festa, com cara de superior eu prove o vinho e diga:
- Sabor excêntrico, resinoso, suave... Tô zuando, vi a garrafa, é Campo Largo. Pode me servir mais uma taça?

3 de janeiro de 2012

Destinatário

Quem não gosta de receber coisas pelo correio não merece ser chamado de pessoa do bem, porque é muito legal. Ler uma carta é muito mais divertido que ler um e-mail, uma mensagem de celular ou levar uma cutucada no Facebook. O problema é que ninguém me escreve cartas e eu respeito a preferência dos meus amigos pela praticidade da internet, afinal nem eu escrevo cartas. Para receber muitas coisas pelo correio eu assino revistas, compro livros e peço amostras grátis. Muitas amostras grátis. Creme dental, sabonete, xampu, perfume, tempero, ração de cachorro. Além da alegria de abrir as embalagens, o que eu não permito que ninguém faça por mim, tem também a utilidade dessas coisas, nada se desperdiça, tudo é devidamente aproveitado. Mas nem todos os dias eu encontro sites de coisas úteis. Pela falta de opção e pela obsessão que isso se tornou, ontem mesmo eu quase pedi um Manual para criação de caprinos. Preenchi todos os dados solicitados e quando fui confirmar o pedido, caí em si e pensei: “Não, Michele, nem tudo que é grátis lhe convém” Desisti do manual e aceitei o fato de que o mundo é dividido em pessoas que sabem e pessoas que não sabem como criar caprinos. E pensar que eu quase mudei de lado...