"Quer abrir a porta? Não existe porta!"
Poderia ser poético se não fosse o atual drama da minha vida. Pois bem, eu tenho um quarto e ele tinha uma porta. Um belo dia minha mãe pensou: "Será que compro alface pro almoço ou mando trocar essa porta de lugar?" Chamou os pedreiros.
Há vinte anos eu tenho entrado no meu quarto pela mesma porta que agora é uma parede com um quadro de paisagem. Enquanto erguiam tijolos na antiga porta eu só pensava: "Vou bater a testa, vou bater a testa, vou bater a testa". Lógico que eu bati a testa. Não pra entrar, mas pra sair do quarto, de madrugada. Eu só queria fazer xixi, estava confusa e a luz havia queimado. No escuro, a minha mão frenética tentava pegar a maçaneta, não tinha maçaneta! Tropecei numa caixa grande cheia de calçados e caí, bati a testa na parede e entendi: "A porta estava em outro lugar".
Aos poucos vou me acostumando, mas sei que a qualquer momento surgirá a próxima dúvida: "Pinto a unha de vermelho ou troco essa privada de lugar?"
9 de junho de 2013
7 de março de 2013
Letras douradas num papel bonito
Eu não queria escrever sobre o dia da Mulher porque não gosto de
textos sazonais e não posso nem começar a falar sobre direitos da mulher, pois a Revista TPM me deixou tão feminista que tenho a impressão que às vezes irrito
as pessoas com esse papo. Mas gente! Em pleno século 21 a mulher que bebe é
considerada sem valores, enquanto o homem pode beber porque é muito macho...
Ai. Tá. Parei.
Esquece isso, tem mulher que não vale nada. Tipo a mulher da música do
convite de casamento. Que puta falta de sacanagem! Eles cresceram na mesma rua,
ele foi o anjo guardião dela, não teve coragem de assumir a paixão e ficou ali
na Friendzone. Ela sabia que ele era apaixonado porque mulher não é boba e
mesmo assim mandou um convite de casamento! Que isso, minha amiga?
E aquela outra que fez o rapaz deixar de ser cowboy por ela? Tudo bem
que ele fez um favor pra sociedade e pra ele mesmo deixando de ser cowboy, mas
justamente por ele não ser mais cowboy ela resolveu abandoná-lo? Decida-se,
vadia!
Um abraço a todas as mulheres.
13 de fevereiro de 2013
Doce Infância
Hoje eu acompanhei minha
afilhadinha em seu primeiro dia de aula. Ela não chorou, mas ficou bem
assustada com tanta informação para processar. Segurou bem forte sua boneca e
ficou lá, sentadinha, esperando a aula começar. Lembrei-me do meu primeiro dia,
talvez segundo ou terceiro, mas me lembro claramente de tentar interagir com todas
as minhas forças. Estava lá, um bando de meninas descontroladas dando tchau pro
tio da Kombi. Eu nem sabia pra quê servia a Kombi, meu pai me buscava de
bicicleta. Mesmo assim tentei me socializar, entrei no meio do alvoroço e
gritei também: “Tchau tiiiio!” Elas ficaram em silêncio e me olharam. Uma
delas, a loirinha disse: “Você nem é da turma da Kombi”. Eu deveria ter pisado
no pé dela, mas não, fiquei sem forças e só falei: “Deixa, nem ligo” e
continuei acenando pro tiozinho de bigode. Eu não me vinguei na época, mas
hoje, se alguma loirinha exibida excluir minha afilhadinha, eu juro que... Ai,
gente, não faço nada. Imagina.
-Opa! Caiu! Coitadinha! Tropeçou é?
4 de fevereiro de 2013
Olfato nostálgico
Crianças tentam se matar involuntariamente o tempo todo. Correm riscos
a torto e a direita.
Lembro que eu ganhei uma boneca que vinha com uma mamadeirinha que
tinha leite de verdade, pelo menos parecia de verdade. Daquelas que quando vira, o leite some e parece que a esfomeada boneca bebeu tudo. Mas eu não era besta e
sabia que havia um mecanismo, só precisava mesmo abrir para entender seu
funcionamento e experimentar o leite para saber se era de caixinha ou
pasteurizado.
Tentei abrir, não consegui. Peguei martelo. Tentei não causar
estragos, mas causei. Quebrou. Um cheiro forte impregnou meu quarto e percebi
que aquele cheiro não era de leite. Pensei: ”Vou provar”. Provei, era horrível.
Limpei depressa, antes da mãe chegar.
Semana passada, em frente a uma construção, senti cheiro de leite de
boneca. Resolvi investigar e descobri que aquilo realmente não era leite. Era
cal.
Agora eu penso: quem tinha menos juízo? Eu ou a fábrica de brinquedos
do Paraguai?
Fiquei parada por um tempo sentindo o cheiro de cal e lembrando coisas
felizes.
Cal me lembra infância.
19 de dezembro de 2012
Nas entrelinhas das normas convencionais
Certos
detalhes que servem para esclarecer as coisas para pessoas normais, apenas me
confundem. Ou confundiam, estou começando a ficar mais esperta. É o caso da
placa “Proibido estacionar – Garagem”. Quando eu perguntava ao meu pai:
-Pai,
se não pode estacionar, para quê serve essa garagem?
Ele
dava uma risadinha e fazia um comentário do tipo:
-
Engraçadinha você.
Mas
era sério. Só agora eu compreendi a lógica.
Antes também não fazia sentido a lista de
ingredientes das receitas. Eu, toda empolgada, resolvia fazer um bolo, mesmo
sem ter permissão para ligar o forno. Minhas dúvidas surgiam logo no início da
receita:
3
xícaras de chá de farinha de trigo;
1
colher de sopa de fermento.
Da
cozinha, eu gritava:
-
Mãe, como faz chá de trigo?
-
Sei lá! Não existe!
-
E sopa de fermento?
Pronto,
ia por água abaixo a descoberta de meus dotes culinários.
21 de novembro de 2012
Aquela dos quase 30
Aos 13 anos, eu ainda brincava de
boneca e minha maior preocupação era: “Ai, meu Deus do céu, as pessoas crescem
e param de brincar de boneca, como elas conseguem? É tão divertido, eu nunca
vou conseguir parar e todos vão rir de mim. Minha vida já era”. Percebi que era
um drama desnecessário após um ano, quando simplesmente deixei de gostar das
Barbies falsificadas e pensei: “Nunca mais farei drama”. Minutos depois eu
inventei um amor platônico e minha maior preocupação era: “Ai, meu Deus do céu,
eu vou amar esse menino até morrer e ele nunca vai corresponder, vou ficar
velhinha sofrendo por ele, minha vida já era”. Percebi que era um drama
desnecessário após um tempo quando eu simplesmente esqueci o amor platônico e
pensei: “Nunca mais”. Minutos depois eu lembrei de que já era hora de deixar de
gostar da Sandy e minha maior preocupação no momento foi: “Ai, meu Deus do céu, eu amo
a Sandy, um dia serei uma mulher de 30 anos que ainda gosta da Sandy, minha
vida já era.” E aqui estou eu, com quase 30 anos. Alguns dramas são reais.
9 de outubro de 2012
N - Natureza, O - Obrigada
Eu vou em festa sertaneja, eu vou em Rave, eu vou até na festa do laço
por prova de amizade, mas acampar eu não vou. Nunca.
Essa é a temporada de acampamento, eu não entendo por que, mas as
pessoas resolvem fazer isso na mesma temporada dos besouros, das mariposas e de
todo inseto asqueroso que possa existir. E não é só por causa dos insetos que
não acampo, é também por causa do Jason e dos filmes da franquia Pânico. Como
eles começam? Em uma igreja? Em uma festinha? Não! Em um acampamento! A lição de moral desses filmes é: Não saia
para acampar e nunca pergunte “Tem alguém aí?”.
No mais é tudo horrível. Dormir em colchonete, ficar sem tomar banho (porque
ninguém me obrigaria a tomar banho no rio ou em qualquer água fria), além de
ficar sem internet e sem maquiagem.
Aí chegam com aquela história de natureza e blá blá blá. Meu amigo,
minha amiga, eu separo o lixo reciclável. Já faço minha parte, não preciso
enfrentar os perigos do mato pra provar meu amor pela natureza.
- Mas, Michele, tomar banho de rio é uma delícia!
- É? Deixa eu pensar... Peixinhos mordedores de canelas, pedras
escorregadias, cobras que engolem pessoas. Ok. Vai lá tomar seu banho, vai.
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